Por Cesar Lopes
Nos últimos dias, algo suscitou muito incômodo no
meio evangélico brasileiro. E o que aconteceu? Foi a fala da Baby do Brasil que,
de forma irrefletida e paranoica, alardeou o fim do mundo em pleno carnaval de
Salvador? Não! Esse acontecimento, com tom escatológico (aplicável aos dois
sentidos etimológicos da palavra), agradou à maioria das denominações
evangélicas. Afinal, alastrar o medo na sociedade serve bem à propaganda
evangelística para, paradoxalmente, apresentar o “amor de Jesus” e fazer novos prosélitos.
Entretanto, o “choro e ranger” de dentes veio mesmo
com a música “Evangelho de fariseus” (ver vídeo abaixo), da cantora e compositora
Aymeê Rocha, participante de um talent show gospel. E isso ocorreu mesmo diante
da possibilidade de a música referir-se a uma antiga fala controversa,
sensacionalista e não fundamentada da ex-ministra Damares Alves sobre a ilha de
Marajó (isso mesmo, quando provocada pelo Ministério Público Federal do Pará, a
ex-ministra não apresentou provas das denúncias que fez sobre abusos sexuais de
crianças e adolescentes na aludida ilha). Porém, se assim o for, “o tiro parece
ter saído pela culatra”, pois a canção tomou proporções outras que trouxeram
diversas manifestações e repúdio do meio evangélico.
Pois bem, a despeito de uma possível ligação com
Damares, é nítido que a bela voz e os versos ácidos de Aymeê foram sentidos como
uma forte crítica que tocou profundamente numa ferida narcísica do universo evangélico,
a saber: ter o seu formato de religiosidade colocado sob escrutínio público e
questionado se é ou não coerente com a mensagem de Jesus Cristo. E isso, óbvio,
gerou revoltas e outras exposições de maus sentimentos com a supramencionada
música, já que os evangélicos, convenientemente, não esperam e não gostam de
receber críticas de nenhum lado. Percebem-se acima de qualquer discordância. É...
quanta vaidade!
Ademais, outras insatisfações com Aymeé passaram
pela brasilidade presente nas suas músicas, pela inegável influência estética advinda
da dupla Anavitória e pelas alusões que ela fez a Djavan em vídeos postados no
youtube. Toda essa “mundanidade” incomodou bastante “os irmãos e as irmãs”.
Claro, para o público evangélico, qualquer conteúdo musical só é uma “adoração”
caso se encaixe nos moldes sonoros do repetitivo worship ou do estridente
pentecostal. Só!
Sim, nobres leitores, o supracitado cenário foi
suficiente para que o segmento religioso que mais critica a sociedade ficasse
em polvorosa. Com efeito, “Evangelho de fariseus” chocou ao expor como a maior
parte das igrejas evangélicas (existem exceções) é voltada para si mesma, presa
às suas próprias atividades, fechada como em uma “bolha”. Do mesmo modo,
afrontou ao apresentar que o “reino”, quer dizer, a igreja (comunidade de fé)
tornou-se “um negócio” rentável, no qual o “dízimo” (contribuição financeira do
fiel) é mais importante que o próprio fiel.
Além disso, na esteira interpretativa da letra da
canção, somos levados a observar que a igreja evangélica, que diz ser a
manifestação do amor e da justiça pautada nos ensinamentos de Jesus, esqueceu-se
de algo fundamental: ele foi uma figura opositora das estruturas de poder e dos
religiosos do seu tempo. Claramente, opôs-se as práticas opressoras, violentas,
mesquinhas e hipócritas presentes na configuração social e na religiosidade
judaica daquela altura – mais preocupada com a lei de Moisés do que com a
misericórdia e com o envolver-se “bom samaritanamente” com o próximo.
Em vista disso, nota-se que a igreja evangélica,
quase sempre, mostra-se insensível para questões e problemas sociais, tais como
as violações de direitos humanos que acontecem em todo o Brasil, incluindo o
Marajó. Simplesmente, não questiona o “pecado estrutural”. Em outros termos, não
contesta o modo de funcionamento social que engendra sofrimentos, injustiças,
miséria e outros. Também não contribui para que os seus membros sejam
defensores dos direitos sociais e da democracia, uma vez que isso é posto como problema
do governo e não dos “cidadãos da pátria celestial”. E ainda existe um
agravante: por vezes, muitas lideranças evangélicas são apoiadoras ou promotoras
de desigualdades e de violações, tendo em vista as posições políticas que
apoiaram nos últimos anos na relação com a extrema-direita.
E é justamente por isto que a canção recebe o título
“Evangelho de fariseus”: pela insensibilidade atroz e pelo legalismo absurdo de
pessoas que muito citam as escrituras sagradas do cristianismo, mas suas
práticas e ações parecem não condizer com o que falam. E isso pode ser
comparado, guardada as devidas proporções por serem seguimentos religiosos e momentos
históricos diferentes, ao cinismo dos fariseus (e dos saduceus e escribas),
isto é, grupos religiosos judaicos que compunham o sinédrio, com os quais Jesus
teve longos debates (vide Mateus 23) e que foram responsáveis pelo planejamento
da sua morte.
Eu sei... algumas pessoas apegadas a uma compreensão
positivista, ao defrontarem-se com este texto, poderão argumentar: “Ah, mas
Nicodemos e Paulo, o apóstolo, eram fariseus, etc.”. Reparem bem, atualmente,
quando alguém chama outra pessoa de “fariseu” não o faz na espera de colocá-la
enquanto um senhor religioso, especialista na lei mosaica, com barbas longas e
com trajes judaicos. Não! Decerto, está a fazer referência à pecha “hipócrita”
que pegou na imagem dos fariseus pelas palavras do próprio Jesus (novamente ver
Mateus 23). Hoje, é usada como metáfora para se referir à hipocrisia de alguém
que cita a Bíblia, que se julga escolhido e santo, contudo não consegue cumprir
aquilo que defende com veemência. Em outras palavras: o religioso fala, no
entanto, não cumpre o que apregoa (até porque muito do que é dito revela-se
inexequível na vida).
Por fim, ao pensar e repensar a respeito desse tema,
compartilho uma inquietação: ao desconsiderarmos os dislates e as fake news da
ex-ministra Damares e ao verificarmos os dados do Ministério Público sobre o
Pará (o que inclui o Marajó), deparamo-nos com uma média de cinco casos de
abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes por dia, o que representa
um número acima da média brasileira. Ora, não é “esquisito” que os evangélicos
que, em tese, pregam o amor, a paz, a justiça e sendo o grupo religioso que
mais cresceu no Brasil nos últimos 30 anos, não tenham exercido uma influência no
tecido social que se materialize numa redução dos índices de diversas
violências no Marajó e, sobretudo, em todo o Brasil? O que acontece com a
contribuição social e cultural dos evangélicos a partir do crescimento
numérico?
Posto isso, acredito ser razoável pensar que questões extremamente complexas estão para além de soluções fáceis e sustentadas na lógica da relação “causa-efeito”. Entretanto, não é exatamente isso que a pregação evangélica defende quando propaga que “o Brasil só vai mudar quando for de Jesus”, isto é, um país de maioria evangélica? Bem, parece que os números robustos não apontam necessariamente para uma mudança ética, tanto pessoal quanto social. Ainda assim, acredito que os preceitos cristãos podem dar a sua contribuição para tal – e acrescento, em concordância com o filósofo Slavoj Zizek, que “O legado cristão autêntico é precioso demais para ser deixado aos fanáticos fundamentalistas”. Todavia, não acredito nos preceitos do “jesus” dos evangélicos brasileiros, visto que se mostraram, até o momento, improfícuos para a promoção de alguma transformação social. Pelo contrário, muitas concepções evangélicas passaram a dar sustentação ao obscurantismo e aliaram-se ao que há de pior no reacionarismo brasileiro. Por exemplo, colocam-se dispostas a colaborar com a antidemocracia e com os golpes de Estado, tal como recentemente vimos no dia 08 de janeiro de 2023. Sem dúvidas, é uma situação lamentável.
Tenham cuidado com o fermento dos fariseus!
6 comentários:
Os extremismos e fundamentalismos estragam as mais diversas religiões.❤️ Eu só queria saber se esse texto já faz parte da Tese? ✍️
Oi, Laíse. Legal o teu comentário. Não faz. São apenas comentários livres. Contudo, algumas ideias que aparecem aqui estarão na tese de forma muito mais elaborada.
Estamos clamando por uma reforma da reforma, precisamos voltar pras escrituras, fazer as verdade eternas relevantes na nossa sociedade, e isso sim deveria ganhar atenção a igreja com um todo, mas não, atenção mesmo ganha uma crítica, ou qualquer um que critica pois “ ousam falar dos ungidos” a estes lembro que Saul e Eli também eram ungidos hahaha
Excelente texto professor
Um texto primoroso que suscita dezenas de questionamentos. Obrigado por essa pérola César!
Obrigado, meu querido Me. Endressy, por sua valorosa observação.
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