quinta-feira, 1 de maio de 2025

Toda semana uma polêmica nova 

Por Cesar Lopes

Passado o caso de vazamento dos vídeos com conteúdo adulto que derrubou o presidente da convenção estadual de uma tradicional igreja evangélica brasileira há algumas semanas, seguimos para a mais nova polêmica do meio religioso: o caso do pastor mirim. É! O campo evangélico é um produtor bem-sucedido de circunstâncias pitorescas que são motivo de escárnio para boa parte da sociedade brasileira. Não duvide, neste exato momento, alguma situação controversa está a acontecer em alguma parte desse Brasil cada vez mais “terrivelmente evangélico”. E, certamente, na próxima semana, teremos novos episódios dantescos vindo a público. São tantos que, se eu fosse escrever, “suponho que nem o mundo inteiro poderia conter todos os livros que seriam escritos.

Bem, todos sabem da situação que envolve o jovem pregador. Então não preciso deter-me nos detalhes, visto que a história ganhou até destaque internacionalmente. Isso ocorreu pelo absurdo que é o espetáculo que ele realiza, digno de um ator canastrão, do que pelo “inglês” que fala nas suas profecias decoradas.     

Em meio a todo esse espetáculo lamentável que a religião nos brinda, recordei-me da minha infância. Não sei como foi para vocês que nasceram no âmbito evangélico, mas eu, desde muito cedo, já tinha planos distintos que entravam em choque com o costume que induz crianças a ser pastores/as, missionários/as, etc. Portanto, eu, “quando criança, sonhei ser Flash Gordom, Super Homem, Robin Hood ou até um rei dos contos de fada. Quis ser ídolo num grupo de rock ou mocinho num filme de cowboy...” (trecho de Hoje sou feliz – canção do Janires do Rebanhão). Ou seja, queria distância de terno e gravata, bem como de falar um português com vocabulário evangélico e que soa pedante para as pessoas fora desse nicho.  

Nasci em 1982, numa família evangélica. E, como esperado, seguia-se o rito tradicional de um narcisismo familiar renascido pela minha vinda ao mundo. Era projetado em mim o desejo de outrem, a saber, fazer-me alguém de destaque na comunidade de fé à qual pertencíamos, um pastor. De fato, o caminho estava traçado e a equação contava que eu seguiria fielmente o que me era colocado sem consulta. Entretanto, nasci numa geração evangélica que teve figuras como Janires e outras como referenciais. Eles “fizeram a nossa cabeça”. Eram pessoas jovens que estavam cansadas de ser tratadas como párias e de colher as consequências do modo de ser da geração anterior, ou seja, fechado e alheio à brasilidade.

Naquela altura ninguém queria ser pastor/a e as pregações traziam a preocupação com essa “falta de interesse”. Ninguém queria usar terno e gravata. O negócio era usar tênis, calça jeans, camiseta e montar uma banda (nada de ministério de louvor). Foi nesse período, do final da década de 1980 e durante toda a década de 1990, que apareceram várias bandas de rock no meio evangélico. Além disso, os poucos que queriam o pastorado buscavam não seguir em concordância com aquela estética e teologia retrógradas para a nossa perspectiva.

Contudo, fomos a geração que perdeu. Muitos foram afastados, expulsos, abafados ou conformaram-se, desistiram e cederam. Em suma, a história foi “apagada”, tanto que o que aqui relato pode soar como inverossímil. E, sim! A teologia do medo, do silenciamento e do espetáculo mambembe que forja pequenos pregadores mirins prevaleceu. Por conseguinte, temos uma nova geração de evangélicos que, assim como o pastor mirim, nega a escola e tudo o que é laico. São crianças, adolescentes e jovens que, obrigados e/ou induzidos pelas famílias, estão espalhados nas igrejas brasileiras a atuar em eventos com notórios traços de charlatanismo, assim como a performar toda a sorte de cenas jocosas que serão, no futuro, motivo de grande sofrimento, ainda mais em tempos de redes sociais em que as informações nunca desaparecem.

Por esse e por muitos outros motivos, sou refratário a essa narrativa que advoga que as igrejas evangélicas, sobretudo as da periferia, atuam como um “Estado de bem-estar social informal”. Tal conclusão considera apenas uma parcela da realidade e desconsidera a outra que mostra que a maioria dos evangélicos – EXISTEM EXCEÇÕES – atua nas obras sociais por interesses proselitistas e, acima de tudo (rsrs), políticos. O que significa que as ações sociais evangélicas visam aumentar o número de evangélicos e aumentar o domínio político-cultural das igrejas. Isso não significa necessariamente promover justiça e transformação social, até porque se assim fosse os números da desigualdade e da violência no país estariam em declínio e não é isso o que vemos. Tal narrativa reducionista é de uma ingenuidade atroz que chega a dar pena.

Quem defende a narrativa supracitada esquece-se das violências psicológicas que muitas pessoas passam nas igrejas, especialmente crianças e adolescentes. Estes últimos são coagidos a seguir a fé dos pais sem que lhes seja dada a oportunidade de escolha. Aos meus ouvidos, isso soa assim: façam o que quiser com as pessoas dentro das igrejas, desde que a distribuição de cestas básicas para a comunidade aconteça todos os meses e possa ser filmada por algum programa sensacionalista de televisão.

E mais: façam o que quiser com as pessoas dentro das igrejas, desde que a distribuição de cestas básicas para a comunidade aconteça todos os meses e ajude a criar outra percepção sobre vocês (evangélicos), em especial para a esquerda. Em consequência, vocês (evangélicos) também são “socialistas” e são “da esquerda”, só não sabem disso. Logo, reconhecemos que vocês são promotores da solidariedade, da justiça e da paz, a despeito do que acontece do lado de dentro das paredes dos seus templos. E que isso se reverta em voto nas urnas na eleição de 2026. Amém!

Não é vergonhoso e lamentável tudo isso?