sexta-feira, 1 de março de 2024

“Evangelho de fariseus”: a recente ferida dos evangélicos brasileiros

Por Cesar Lopes

Nos últimos dias, algo suscitou muito incômodo no meio evangélico brasileiro. E o que aconteceu? Foi a fala da Baby do Brasil que, de forma irrefletida e paranoica, alardeou o fim do mundo em pleno carnaval de Salvador? Não! Esse acontecimento, com tom escatológico (aplicável aos dois sentidos etimológicos da palavra), agradou à maioria das denominações evangélicas. Afinal, alastrar o medo na sociedade serve bem à propaganda evangelística para, paradoxalmente, apresentar o “amor de Jesus” e fazer novos prosélitos.

Entretanto, o “choro e ranger” de dentes veio mesmo com a música “Evangelho de fariseus” (ver vídeo abaixo), da cantora e compositora Aymeê Rocha, participante de um talent show gospel. E isso ocorreu mesmo diante da possibilidade de a música referir-se a uma antiga fala controversa, sensacionalista e não fundamentada da ex-ministra Damares Alves sobre a ilha de Marajó (isso mesmo, quando provocada pelo Ministério Público Federal do Pará, a ex-ministra não apresentou provas das denúncias que fez sobre abusos sexuais de crianças e adolescentes na aludida ilha). Porém, se assim o for, “o tiro parece ter saído pela culatra”, pois a canção tomou proporções outras que trouxeram diversas manifestações e repúdio do meio evangélico. 

Pois bem, a despeito de uma possível ligação com Damares, é nítido que a bela voz e os versos ácidos de Aymeê foram sentidos como uma forte crítica que tocou profundamente numa ferida narcísica do universo evangélico, a saber: ter o seu formato de religiosidade colocado sob escrutínio público e questionado se é ou não coerente com a mensagem de Jesus Cristo. E isso, óbvio, gerou revoltas e outras exposições de maus sentimentos com a supramencionada música, já que os evangélicos, convenientemente, não esperam e não gostam de receber críticas de nenhum lado. Percebem-se acima de qualquer discordância. É... quanta vaidade!

Ademais, outras insatisfações com Aymeé passaram pela brasilidade presente nas suas músicas, pela inegável influência estética advinda da dupla Anavitória e pelas alusões que ela fez a Djavan em vídeos postados no youtube. Toda essa “mundanidade” incomodou bastante “os irmãos e as irmãs”. Claro, para o público evangélico, qualquer conteúdo musical só é uma “adoração” caso se encaixe nos moldes sonoros do repetitivo worship ou do estridente pentecostal. Só!

Sim, nobres leitores, o supracitado cenário foi suficiente para que o segmento religioso que mais critica a sociedade ficasse em polvorosa. Com efeito, “Evangelho de fariseus” chocou ao expor como a maior parte das igrejas evangélicas (existem exceções) é voltada para si mesma, presa às suas próprias atividades, fechada como em uma “bolha”. Do mesmo modo, afrontou ao apresentar que o “reino”, quer dizer, a igreja (comunidade de fé) tornou-se “um negócio” rentável, no qual o “dízimo” (contribuição financeira do fiel) é mais importante que o próprio fiel.

Além disso, na esteira interpretativa da letra da canção, somos levados a observar que a igreja evangélica, que diz ser a manifestação do amor e da justiça pautada nos ensinamentos de Jesus, esqueceu-se de algo fundamental: ele foi uma figura opositora das estruturas de poder e dos religiosos do seu tempo. Claramente, opôs-se as práticas opressoras, violentas, mesquinhas e hipócritas presentes na configuração social e na religiosidade judaica daquela altura – mais preocupada com a lei de Moisés do que com a misericórdia e com o envolver-se “bom samaritanamente” com o próximo.

Em vista disso, nota-se que a igreja evangélica, quase sempre, mostra-se insensível para questões e problemas sociais, tais como as violações de direitos humanos que acontecem em todo o Brasil, incluindo o Marajó. Simplesmente, não questiona o “pecado estrutural”. Em outros termos, não contesta o modo de funcionamento social que engendra sofrimentos, injustiças, miséria e outros. Também não contribui para que os seus membros sejam defensores dos direitos sociais e da democracia, uma vez que isso é posto como problema do governo e não dos “cidadãos da pátria celestial”. E ainda existe um agravante: por vezes, muitas lideranças evangélicas são apoiadoras ou promotoras de desigualdades e de violações, tendo em vista as posições políticas que apoiaram nos últimos anos na relação com a extrema-direita.

E é justamente por isto que a canção recebe o título “Evangelho de fariseus”: pela insensibilidade atroz e pelo legalismo absurdo de pessoas que muito citam as escrituras sagradas do cristianismo, mas suas práticas e ações parecem não condizer com o que falam. E isso pode ser comparado, guardada as devidas proporções por serem seguimentos religiosos e momentos históricos diferentes, ao cinismo dos fariseus (e dos saduceus e escribas), isto é, grupos religiosos judaicos que compunham o sinédrio, com os quais Jesus teve longos debates (vide Mateus 23) e que foram responsáveis pelo planejamento da sua morte.

Eu sei... algumas pessoas apegadas a uma compreensão positivista, ao defrontarem-se com este texto, poderão argumentar: “Ah, mas Nicodemos e Paulo, o apóstolo, eram fariseus, etc.”. Reparem bem, atualmente, quando alguém chama outra pessoa de “fariseu” não o faz na espera de colocá-la enquanto um senhor religioso, especialista na lei mosaica, com barbas longas e com trajes judaicos. Não! Decerto, está a fazer referência à pecha “hipócrita” que pegou na imagem dos fariseus pelas palavras do próprio Jesus (novamente ver Mateus 23). Hoje, é usada como metáfora para se referir à hipocrisia de alguém que cita a Bíblia, que se julga escolhido e santo, contudo não consegue cumprir aquilo que defende com veemência. Em outras palavras: o religioso fala, no entanto, não cumpre o que apregoa (até porque muito do que é dito revela-se inexequível na vida).

Por fim, ao pensar e repensar a respeito desse tema, compartilho uma inquietação: ao desconsiderarmos os dislates e as fake news da ex-ministra Damares e ao verificarmos os dados do Ministério Público sobre o Pará (o que inclui o Marajó), deparamo-nos com uma média de cinco casos de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes por dia, o que representa um número acima da média brasileira. Ora, não é “esquisito” que os evangélicos que, em tese, pregam o amor, a paz, a justiça e sendo o grupo religioso que mais cresceu no Brasil nos últimos 30 anos, não tenham exercido uma influência no tecido social que se materialize numa redução dos índices de diversas violências no Marajó e, sobretudo, em todo o Brasil? O que acontece com a contribuição social e cultural dos evangélicos a partir do crescimento numérico?

Posto isso, acredito ser razoável pensar que questões extremamente complexas estão para além de soluções fáceis e sustentadas na lógica da relação “causa-efeito”. Entretanto, não é exatamente isso que a pregação evangélica defende quando propaga que “o Brasil só vai mudar quando for de Jesus”, isto é, um país de maioria evangélica? Bem, parece que os números robustos não apontam necessariamente para uma mudança ética, tanto pessoal quanto social. Ainda assim, acredito que os preceitos cristãos podem dar a sua contribuição para tal – e acrescento, em concordância com o filósofo Slavoj Zizek, que “O legado cristão autêntico é precioso demais para ser deixado aos fanáticos fundamentalistas”. Todavia, não acredito nos preceitos do “jesus” dos evangélicos brasileiros, visto que se mostraram, até o momento, improfícuos para a promoção de alguma transformação social. Pelo contrário, muitas concepções evangélicas passaram a dar sustentação ao obscurantismo e aliaram-se ao que há de pior no reacionarismo brasileiro. Por exemplo, colocam-se dispostas a colaborar com a antidemocracia e com os golpes de Estado, tal como recentemente vimos no dia 08 de janeiro de 2023. Sem dúvidas, é uma situação lamentável.

Tenham cuidado com o fermento dos fariseus!