Por Cesar Lopes
Há alguns dias fiz uma
afirmação provocativa, polêmica e propositalmente anacrônica em uma rede
social. A saber: eu disse que Jesus foi o primeiro comunista da história (quase
o “Jesus, o maior socialista que já existiu”, título do livro de Jefferson
Ramalho). Imaginem a confusão que isso deu... ainda mais diante desse “Cristo”
estranho que muitos tem defendido por aí nesses últimos anos.
Meu objetivo era causar um
choque nos leitores para que atentassem sobre quem foi Jesus Cristo. Afinal, chega
a ser inacreditável que ultimamente tenhamos que explicar e reexplicar para
cristãos a opção do Cristo pelos desamparados, excluídos e oprimidos. É indubitável
que ele escolheu viver entre os humildes e no meio dos que “não são”. Ele é o
bom samaritano de sua própria parábola e, além de tudo, foi aquele que divergiu
dos sacerdotes de seu tempo. Denunciou-os como insensíveis às causas do povo e
enclausurados na legalidade da religião que forjaram. Com efeito, em suas
primeiras palavras ao público (Lucas 4:18), a libertação foi anunciada e a
opressão tem seu fim decretado.
Diante dessa constatação,
causa-me espécie essa inversão que estamos a assistir na cristandade evangélica,
principalmente no Brasil – traduzida na mudança do mandamento cristão do amor
em seu oposto, ou seja, o ódio – por mais paradoxal que isso pareça. Em outras
palavras, grande parte do seguimento evangélico mostra-se comprometido com as
estruturas de poder que perpetuam a opressão. Não por acaso a sociedade sente
constantemente os resultados disso, especialmente quando observamos o que está
a acontecer no campo político.
Sim! É no mínimo “curioso” o
supracitado posicionamento e você deve estar a se perguntar: como alguém pode
articular a postura do Cristo com aquilo que é o contrário do que ele propôs?
Como conseguem vê-lo nas práticas opressoras? Bem, a resposta não é
simples, entretanto observo que um dos aspectos que contribuem para essa
contradição evangélica são as lentes usadas para a leitura da vida e do texto
sagrado do cristianismo, a bíblia.
Nesse sentido, vocês já se
deram conta de quantas “verdades” da apresentada como “palavra de Deus” as
pessoas propagam e como isso marca presença em nossa cultura? Existe uma
“teologia do senso comum” (montagem feita das diversas ideias implementadas
aqui pelo movimento evangélico norte-americano) que paira no ar e rege as
atitudes até mesmo daqueles que nem frequentam uma igreja. De forma sucinta:
ela apregoa um destino inevitável no qual o mundo é dividido entre bem e mal,
em que Deus será o carrasco daqueles que descumprirem os mandamentos
comunicados por seus “escolhidos”. Infelizmente, isso nunca é tomado apenas como
uma interpretação do livro sagrado do cristianismo, mas sim como a verdade única,
sendo inerrante e imutável. E ai de você se questionar ou propor que existem
outras perspectivas e interpretações das escrituras.
Efetivamente, tais “lentes”,
quer dizer, essa “teologia do senso comum” constituída a partir de concepções ideológicas
de mundo que culminam numa “cristandade de opressão”, contribuíram para o
engendramento do modus operandi da
sociedade capitalista. Servem-se dele para potencializar as suas manifestações
fundamentalistas e excludentes, tal como para lucrar com o mercado da fé.
Assim, temos duas facetas majoritárias no discurso do evangelicalismo
brasileiro. A primeira é aquela mais “talibânica”, legalista, que advoga
preocupação com a família tradicional e com rigorosos preceitos sobre o corpo e
a sexualidade, sobretudo das mulheres. Já na outra, mercadológica, Deus é uma commodity, isto é, um produto a ser comercializado
a cada esquina nos empreendimentos religiosos, nos “fast food da fé”, para quem quiser comprá-lo e a seus benéficos no varejo
e no atacado.
É pelas supracitadas
expressões que acontece um “manejo dos afetos”, isto significa: instigar e
utilizar a culpa, o medo, a vergonha e, por outro lado, a ganância, como forma
e fórmula para manter as pessoas cativas a uma visão de mundo, engajadas em
determinadas propostas políticas, tornando-as patrocinadoras de projetos de
poder do seguimento evangélico. Por conseguinte, partícipes do modelo
capitalista de vida, tanto intramuros (na igreja) quanto extramuros (na sociedade
em geral), e indiferentes às consequências deste no tecido social. Ademais, nesse
contexto, a cristandade (de opressão) forjada convive sem problemas com a
desigualdade social, com a concentração de renda, com o racismo, com a homofobia,
com a misoginia e outras injustiças.
O que fazer diante disso? A
resposta é tão óbvia que pode ser até rasa, todavia é o começo: lutar! Não
obstante, essa esfinge religiosa está pronta a devorar aqueles que não a
decifrarem. É um desafio compreender esse grupo específico que a cada dia
mostra-se disposto a impor sua fé e a obliterar as demais crenças. Estão
empenhados a tornar o Brasil evangélico por decreto.
Contudo, a despeito desta lamentável realidade evangélica (e) brasileira vigente, parece surgir um contraponto também evangélico, ainda que tímido, minoritário, porém protestante, progressista, inconformado com o atual cenário e ciente de que “Deus não habita em templos feitos por mãos humanas”. Apresenta-se engajado na luta por justiça social, pelos direitos humanos e pelo Estado laico. Decerto, essa minoria que não se esqueceu daquilo que chamo de “protestanticialidade”, tem como modelo a cristandade de libertação da comunidade de fé descrita em Atos 2: 44-46, que diz:
“Todos
os que criam mantinham-se unidos e tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua
necessidade. Todos os dias, continuavam a reunir-se no pátio do templo. Partiam
o pão em suas casas, e juntos participavam das refeições, com alegria e
sinceridade de coração...”
Um comentário:
Jesus veio pelo amor e não há nada no novo testamento que não seja o amor...os poucos momentos de irritação, ou mesmo raiva, "Irado, olhou para os que estavam à sua volta e, profundamente entristecido por causa dos seus corações endurecidos..." (Marcos 3:5), não são fruto de preconceito, de moralismo comportamental, mas de contrariedade pela hipocrisia, pela cobiça dos cambistas que lucravam em nome do Pai em frente ao Seu Templo. Mesmo esta raiva não produz violência física ou medo, mas ensinamento e respeito.
Há, entre estes, uma vontade de confraria, uma dificuldade de entender a individualidade da Graça e do caminho de santificação, do juízo, que, pelo amor, levará em conta os contextos, o coração e arrependimento. Os lamúrios e gritos afetados daqueles que advogam representarem Deus, assim como seus asseclas seguidistas , ou são tolas crianças desnorteadas, dignas de pena e assessoramento espiritual ou embate, quando são os astutos lobos em busca da carne mansa, serpentes do mundo, feitos da mesma matéria dos que crucificaram Cristo.
Sim, nosso Ide demanda que estejamos atentos e vigilantes para aqueles que manobram em nome do Pai, mas conduzem em favor de si, do mundo e, portanto, da serpente. Ratificar a diferença entre o que falam e a Palavra, o Verbo, é parte da missão dos que querem aumentar o Reino de Deus e, serem instrumentos do Pai.
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